Motivos pelos quais estou acompanhando atentamente o movimento Indie Hackers
É curioso como a constatação de que o mundo está se tornando mais polarizado no quesito financeiro acaba afetando as pessoas. Vez por outra, aparecem textos que comentam sobre estatísticas indicando que os mais ricos estão mais ricos e os mais pobres se multiplicaram. Importante salientar que não é necessário alguém ter uma queda no número que aparece no seu contracheque para que ele fique mais pobre, a inflação se encarrega de tornar o dinheiro menos valioso, mesmo que o número permaneça. Nesse cenário, o empreendedorismo se manifesta de diversas formas e vamos falar sobre isso mais para a metade do texto em diante.
Lembro bem que um (1) litro de suco de uva integral custava algo como seis (6) reais em 2013. Em 2019, o mesmo litro de suco de uva integral custa quinze (15) reais — e chegou a custar dezenove (19) por volta do final de 2016. O número dos preços possui uma dinâmica, eles aumentam por diversas razões e este fenômeno se chama inflação.
O salário da maioria dos brasileiros, normalmente, é apenas reajustado. O ordenado de uma parte dos brasileiros, nem reajustado é (os servidores públicos em geral, pelo menos no executivo federal, estão há três anos sem reajuste, caminhando para o quarto ano). Se os preços sobem mais rápido do que os salários, a percepção é a de que o salário encolheu. O que se comprava antes, não se pode comprar mais, mesmo que o número referente ao salário seja o mesmo ou tenha aumentado levemente. É a inflação corroendo o poder de compra do trabalhador.
Em meio à realidade de ter menos poder de compra, o instinto de sobrevivência começa pulsar e as pessoas fazem planos para aumentar a receita da casa, a renda familiar.
A parcela da classe média (considerando todo seu espectro) que aterrissa pela primeira vez nessa situação, considera isso uma novidade. Os mais pobres já aterrissaram ou mesmo nasceram em meio a essa realidade e, mesmo assim, muitos até possuem menos ferramentas para lidar com essa situação. Duvida? Se você está lendo esse texto, provavelmente possui seu próprio dispositivo móvel com acesso à internet, ou laptop, ou até um desktop, ou trabalha em um lugar onde pode usar o equipamento. Em qualquer um desses casos, você está muito à frente de quem não possui uma caneta e papel pra anotar o endereço dessa página (sim, essas pessoas existem).
Sou privilegiado. Disponho dos meios materiais e da formação educacional que tive para escrever esse texto. Minha realidade me coloca numa vantagem em relação à maioria da população brasileira. A partir da minha posição, me atrevo a compartilhar os motivos pelos quais comecei a acompanhar alguns perfis no Twitter que se identificam como parte do movimento, digamos assim, dos “Indie Hackers”.
Indie Hackers e Indie Makers
A página https://www.indiehackers.com/ define os indie hackers como “fundadores ajudando uns aos outros a iniciar negócios lucrativos”.
Praticamente todos que interagem com o perfil Indie Hackers estão em busca de lucro com suas invenções; não me recordo de ter visto alguém afirmar o contrário. Em boa parte, aparentam apenas querer a independência financeira, uma vez que poucos afirmam explicitamente que querem criar o próximo “unicórnio”, uma empresa que valha 1 bilhão de dólares. São construtores independentes que querem continuar independentes, mas também querem sobreviver com dignidade.
Um outro termo que é citado e que muitas vezes se refere ao mesmo fenômeno, é o Indie Makers. Mantenha isso em mente por um tempo, enquanto eu continuo utilizando o termo Indie Hackers por mais alguns parágrafos.
Essencialmente, são os empreendedores de sempre. Mas algumas características específicas no processo de empreendedorismo que praticam fizeram com que se identificassem mutualmente e sentissem que não são exatamente o perfil clássico da pessoa que quer ter um negócio. Se estão certos ou não, pode ser uma boa discussão, mas o concreto é que eles se ajuntaram e escolheram um rótulo para definir o que são.
São fundadores de seus próprios negócios, realizando todas as tarefas, uma vez que não há recursos abundantes para iniciar o negócio (até aí, nada novo). Estão bastante ligados à indústria de tecnologia (em boa parte, programadores ou pessoas que se aliaram a programadores para trazer a ideia à luz do dia). São independentes (indie), até mesmo ao ponto de rejeitar financiamentos externos (como muitos da indústria de tecnologia esperam). Tentam compartilhar ativa e abertamente na internet acerca dos passos na jornada empreendedora, as falhas, dúvidas e sucessos, ajudando outros fundadores e aceitando a experiência alheia para melhorar sua própria jornada — esta característica eu acho interessantíssima.
Uma das figuras mais interessantes que encontrei nesse mundo é o Pieter Levels. Alguns anos atrás ele ganhou alguma notoriedade ao dizer que, sendo tão difícil emplacar um negócio na internet, o ideal seria fazer vários. Ele passou um ano criando um negócio baseado na internet por mês, para tentar verificar se um desses negócios se tornaria algo de sucesso que pudesse pagar suas contas. Ele conseguiu, criou o nomadlist.com e vive (bem) com a receita desse site e de outros dois negócios menores. Não satisfeito, escreveu um livro chamado Make (https://makebook.io/), o qual ainda não li, mas que aparentemente trata das etapas que devem ser seguidas por quem quer ser um Indie Maker (ele utiliza o termo Maker no lugar de Hackers, mas é, fundamentalmente, a mesma coisa).
compartilhada em seu perfil no Twitter. Essa experiência, somada às outras de diversos indie hackers, são material de aprendizado, inovação, entusiasmo e inspiração para outros que estão iniciando ou já se encontram na mesma caminhada.
O método Indie Maker, segundo Pieter Levels
Apesar de ainda não ter lido o livro Make, tenho capturado algumas dicas do Pieter Levels sobre as etapas do processo de criação desses negócios numa perspectiva “vários, para que um dê certo”.
Serei breve sobre quais são as etapas e o que penso que são. Assim que eu ler o livro, saberei se minha percepção sobre as etapas estavam corretas e, então, pretendo relatar novamente sobre elas, com um pouco mais de conhecimento sobre a visão do Levels.
Ideia
Tudo começa com uma ideia. Imagino que a máxima do negócio seja reproduzida aqui: encontre uma demanda. Se as pessoas precisam, sabendo ou não, descubra e crie uma solução. Supra a demanda.
Construa
Uma vez que a solução tenha sido concebida, torne ela realidade rapidamente. Um protótipo, um produto mínimo viável, é o suficiente para testar empiricamente se a demanda realmente existe.
Inicie
Foi confirmada a existência da demanda? Inicie o negócio. Ter o melhor produto é importante, mas ser o primeiro a oferecer uma solução é estratégico.
Cresça
É bem possível que os concorrentes apareçam, então tente crescer logo. Seja relevante e crie uma marca memorável com o melhor serviço ou produto que você pode oferecer.
Monetize
Algumas iniciativas, principalmente as de base tecnológica na internet, podem inciar gratuitamente, com serviços sem custo. Mas como você é um independente, sem recursos externos que mantenham seus custos, você precisa de receita. Tão logo suas contas estejam pagas, mais tranquilamente você pode trabalhar em seu novo negócio.
Automatize
O ciberespaço permite que você crie bots para automatizar as tarefas. Crie rotinas automatizadas em sua plataforma digital para que não precise intervir a cada venda ou cada atividade de seus usuários. Automatize o máximo possível.
Saia
O negócio não deu certo em algumas semanas? Saia, termine, talvez não seja uma boa ideia. Construa outra coisa. Para Levels, um bom negócio deste tipo encontra seu nicho rapidamente, ainda que o crescimento demore um pouco. Saiba a hora de desistir, me parece ser a mensagem principal.
A inflação e os Indie Hackers/Makers
Acredito que você já tenha ligado a questão da inflação, sobrevivência e o movimento indie de criação de negócios baseados na internet.
Em meio ao problema da maior acumulação de capital pelos mais ricos e diminuição do poder aquisitivo dos mais pobres, a inflação (ainda que seja lenta, ela existirá), a internet tem criado a esperança em muitas pessoas que tentam sobreviver com alguma realização que proporcione uma receita suficiente para viver. É a perfeita definição do negócio próprio, só que na internet, “levantando” à vida novos empreendimentos de uma forma característica e compartilhada por todos aqueles que se identificam com essa cultura de fazer.
O compartilhamento de informação na comunidade também gera uma fonte de informação importante para quem está começando ou quem começou. A jornada deixa de ser totalmente solitária. Há um ar de trabalho colaborativo entre os independentes.
Se estamos tentando sobreviver, é bom conhecer as diversas formas nas quais as pessoas estão tentando fazer isso. Por isso os Indie Hackers me chamaram a atenção, acredito que há algo a ser aprendido e praticado nesse universo.
Meu objetivo é escrever 30 textos em 30 dias. Este é o 13/30. Os textos anteriores podem ser encontrados em https://medium.com/(ricsodre?)