Os sabores de Linux que eu já usei: do adolescente curioso ao adulto sem tempo

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Uma jornada pessoal através de distribuições Linux, do Slackware nos anos 1990 ao Antergos em 2019, refletindo sobre a evolução do usuário ao longo do tempo.
Autor

Ricardo Sodré Andrade

Data de Publicação

1 de março de 2019

Atenção: Esse texto é cheio de termos técnicos. Se você achar que não está entendendo nada, sugiro que pesquise o termo no Google. Você aprenderá, pelo menos, uma ou duas coisas sobre o universo do Linux. Também pode abandonar esse texto e ler os outros que escrevi até agora, sem crise. :)

Essa é minha tela inicial de trabalho atualmente

Comecei a usar o Linux por volta do início da segunda metade da década de 1990. Eu era bem novo, que fique claro. Naquele tempo, comprei dois CDs de instalação do Slackware Linux usando o cartão de crédito de um primo (ou da minha tia, indiretamente) e vendi um dos CDs para um colega de escola pelo dobro do preço, o que fez com que a operação toda ficasse gratuita pra mim. Não me julgue, eu era um quebrado e os CDs eram 2,99 dólares cada um.

Demorei semanas até conseguir instalar. Não fazia ideia de como fazer a instalação e tive que procurar nos escassos documentos em português que existiam, já que meu nível de inglês era realmente muito limitado. À custa da formatação do meu 486 DX-2, consegui instalar e me achei o próprio engenheiro da Nasa, principalmente quando compilava o Kernel apenas pra ver as linhas passando pela minha tela no terminal de linha de comando. O Slackware foi uma grande aventura.

KDE antigo

Depois de um tempo que não tenho como lembrar, fui apresentado ao Conectiva (acho que a versão era chamada de Marumbi, salvo engano). Me prometeram uma interface gráfica. Era feia, muito feia, deve ter sido alguma versão do KDE, um dos gerenciadores de janela que podem ser utilizados no Linux. Mais uma vez, não durou muito em meu computador. Eu queria jogar Civilization II e o Linux não estava colaborando com isso.

Civilization II

Eu realmente lembro de ter tentado instalar o Debian, mas essa tentativa foi tão breve e nada acrescentou à minha versão mais jovem e inexperiente, que eu vergonhosamente não me lembro de nada. Eu sei que eu instalei. O Debian é fantástico, o problema foi aquele adolescente impaciente mesmo. Na sequência, testei Mandrake, Suse e outros. Não testei o Gentoo, talvez tenha sido o único, já que até alguns da turma dos BSD eu testei (FreeBSD, OpenBSD e NetBSD).

Eu realmente tentei usar o Linux naquele tempo, tentei diversas distribuições uma vez que passei a ter acesso à internet, mas, naquela era primitiva dos “winmodem”, baratos, mas incompatíveis com o Linux, a falta de drivers me deixavam de fora da internet. Demorou até eu entender como deixar instalado o Windows e o Linux na mesma máquina, a isso chamam de dual boot, você pode ligar o computador e escolher qual sistema operacional quer utilizar.

Dado o problema de acessar a internet utilizando o Linux, passei anos usando Windows. Mantive o dual boot na máquina, mas a verdade é que quem tem dual boot acaba com a tendência a utilizar mais um sistema operacional do que o outro. Mantive meu contato com Linux por meio das contas em máquinas liberadas para criação de contas gratuitas em universidades ou por pessoas que achavam uma ótima ideia ter uma comunidade de usuários acessando seus servidores remotamente para fazer o que quisessem. Aprendi os comandos de terminal naquela época e tive os primeiros contatos com os scripts (ainda que não tivesse criado nada útil).

Em algum momento entre 2007 e 2013, voltei a usar Linux como sistema operacional principal. Os serviços estavam todos migrando para a web e não havia muito aquela situação de “mas esse aplicativo não tem pra Linux”. Ora, era tudo baseado na web. O peso da balança pendeu para o Linux, no dual boot.

Eu utilizava o Ubuntu, aquela maravilha que possuía todos os drivers e instalava todos os componentes na minha máquina sem precisar escovar bits ou me fazer gastar um bom tempo enorme tentando descobrir o motivo de algo não estar funcionando. Neste tempo, eu não era mais um adolescente com os bolsos cheios daquele recurso precioso e raro: o tempo.

Lembro que me sentia bem usando o Ubuntu no tempo do Gnome com a interface clássica. Cheguei a comentar com um amigo que também usava Linux: “Não gosto daquelas coisas pulando na tela, cheia de animações e cores, como é no KDE” (puro preconceito meu, eu acho, já que nunca mais usei KDE na vida desde a adolescência).

Unity

Deixei de usar o Linux novamente quando o Ubuntu trocou o Gnome pela outra interface diferente, o Unity. A decisão de fazer minha dissertação de mestrado no pacote office da Microsoft também pesou para retornar ao Windows. Como eu já era adulto, particularmente ranzinza na época, achei a experiência de usuário que o Unity proporcionava como uma mudança desconfortável pra mim.

Lá se foram mais alguns anos. Deixo claro que meu contato com Linux foi praticamente ininterrupto desde 2001. Configurei muitos servidores para meu uso e alguns para uso de clientes a quem eu prestei consultoria. Foram muitos comandos nos terminais, acessando remotamente máquinas virtuais. Aprendi muito nesse tempo.

Ubuntu Mate com Gnome clássico

Descobri em 2014 (mais ou menos), o Ubuntu Mate, um projeto que resgatava o Ubuntu com a interface do Gnome clássico. Me empolguei e planejei retornar ao uso do Linux, com dual boot. Tudo ia bem, a versão 14.04 do Ubuntu Mate quase me levou a migrar definitivamente de volta para o Linux, afinal, agora temos o Virtualbox e meu equipamento era bom o suficiente para ter o Windows “dentro” do Linux, utiliza-lo como se fosse mais um aplicativo. Mas então veio o Ubuntu 16.04, que diminuiu um pouco minhas boas impressões sobre a estabilidade do sistema para o uso desktop (provavelmente, o problema era eu mesmo).

Aqui estamos, em 2019. Este ano eu resolvi migrar do Ubuntu Mate para o Antergos, uma distribuição baseada no Arch Linux. Motivo? Sendo mais “experiente” do que fui alguns anos atrás, a migração periódica para novas versões estáveis do Ubuntu não estava ocorrendo de forma que me deixasse confiante. O Antergos me proporciona o que é chamado de rolling release, ou seja, ele sempre atualiza os aplicativos e demais componentes para uma versão mais nova sem necessidade de reinstalação do SO, isso é meu must have de nerd adulto sem tempo, nunca mais ter que reinstalar o Linux e reconfigurar tudo. Meu ambiente de trabalho ficará estável, apesar dos vários textos na internet que afirmam que o Arch Linux pode quebrar o funcionamento de algo em seu computador, justamente por sempre atualizar para uma versão mais recente. Os relatos de estabilidade de vários usuários me fizeram achar que valia a pena o risco, que sempre há, de manter sempre as versões mais novas dos software que uso.

Não tenho do que me arrepender de ter trocado o Ubuntu Mate pelo Antergos, que me ofereceu uma instalação fácil como o Ubuntu Mate faria e me disponibiliza a atualização que o Arch Linux promete. Se tudo der certo, ficarei por aqui por bastante tempo. E nem é o Gnome clássico.

Um “print” aleatório do Gnome Shell que peguei na internet.

Meu objetivo é escrever 30 textos em 30 dias. Este é o 15/30. Os textos anteriores podem ser encontrados em https://medium.com/(ricsodre?)