Se as redes sociais estão mudando, para onde todos nós estamos indo?
Houve um tempo em que novas redes sociais surgiam com frequência. Muitos internautas que hoje estão no Facebook, passaram por duas ou três gerações de redes sociais anteriores. Pelo menos, boa parte das pessoas chegou a ter uma conta no saudoso Orkut.
Não vou prever a “morte” de nenhuma rede social, mas desconfio que os modelos existentes atualmente encontraram a última geração com as características que conhecemos. Motivos? Estamos testemunhando um período ruim para o Facebook, que está cercado por países e blocos de países agindo para minar o uso indiscriminado de poder que essa empresa operou nos últimos anos. Algumas crises grandes ocorreram e outras menores ocorrem com alguma frequência. Essa semana, foi divulgado que centenas de milhares de usuários estavam com suas senhas guardadas em em texto, não criptografado, nas bases de dados. Um horror. Conheço alguns desenvolvedores que eliminaram a síndrome do impostor por causa desse “amadorismo” intencional daquela empresa (que na verdade tinha seus objetivos): “Isso não acontece nem aqui em casa!”.
O modelo de negócios do Facebook é seu pior inimigo e redes menores e iniciantes não devem querer enfrentar Estados regulamentados e prontos para agir contra esses abusos à privacidade e outros direitos das pessoas.
Mas se a inovação das redes sociais nos modelos do Facebook parece ter estacionado, como serão as próximas redes sociais?
Diante de tantas bolhas, reclamações sobre os comportamentos ruins que adquirimos ao viciar nessas redes, no esvaziamento de bons conteúdos nas timelines, repletas de postagens negativas, falsas, preconceituosas e, até mesmo, carecendo de um mínimo de veracidade, eu apostaria que vamos em direção aos ambientes especializados.
Foi o que aconteceu com os blogs e os podcasts. Eram genéricos, abundantes e, em boa parte, monótonos.
A era do blog acabou, disse um conhecido certa vez, anos atrás. Não acabou. As empresas aproveitaram o formato, os cientistas usaram como veículo de comunicação científica, os jornalistas reencontraram um espaço para escrever sem limitação de pautas e novamente os blogs floresceram em qualidade de conteúdo. Os podcasts também. E dessa vez eles não são genéricos. Fugiram da fama de diários de adolescentes (nada contra os diários) e se tornaram fontes importantes e específicas de informação.
Ora, acredito que acontecerá o mesmo com as redes sociais. As pessoas formarão grupos especializados em temas específicos, colecionarão espaços de interlocução com pessoas dos espaços sociais em que participam ou que passam a participar de forma facilitada, via internet. De preferência, apenas pelo uso de dispositivos móveis. Isso soa familiar? É que parece que já está ocorrendo.
Uma das plataformas que utilizo atualmente, o Telegram, é um exemplo de como as comunidades de desenvolvedores e outros grupos de interesse ingressam e permanecem apenas por causa dos grupos e canais de informação. Me parece que, em boa parte, quando as pessoas precisam conversar com alguém, elas usam o Whatsapp; mas quando precisam tirar dúvidas ou encontrar pessoas que utilizam ferramentas ou possuem conhecimento ou formação similar, elas buscam ambientes como o Telegram. Não posso afirmar cientificamente essa impressão, mas nunca ocorreu de alguém não ligado à tecnologia me perguntar “qual o seu Telegram?”.
Espaços de interlocução genérica parecem ter a tendência de ceder o espaço às interlocuções específicas, mesmo nas redes sociais “tradicionais” que conhecemos. Grupos temáticos parecem ser a grande vantagem de permanecer nesses ambientes atualmente, além dos avisos de aniversários e o “contato” com aqueles velhos conhecidos de vinte anos atrás que nunca mais vimos e, possivelmente, nunca mais veremos.
Não sei se o ajuntamento temático significaria mais bolhas ou mais espaços de especialização e conhecimento. Qual realidade é e será mais expressiva nos próximos anos? O ajuntamento de entusiastas de, digamos, criação de abelhas, eu a reunião daqueles que conversam sobre a “teoria” da terra plana? Nossa tendência é para o conhecimento ou para a idiotização?
Se as redes sociais que experimentamos até aqui foram apenas o tempo primitivo desses ambientes no ciberespaço, então quero acreditar que as próximas gerações das plataformas digitais de socialização em rede serão mais significativas. O que vêm após o primitivo precisa ser o avançado, algo melhor, ou não?
Precisamos aprender a ser significativas na criação de conhecimento, na divulgação de informação de qualidade, na checagem de dados, no debate qualificado e na contribuição da criação de um ambiente estruturado de diálogo. Isso está mais na Educação, em seus processos e dinâmicas, nas suas realidades da menor idade até nos adultos.
Parece que eu não falei da Educação, mas a verdade é que eu falei o tempo todo. A humanidade terá que escolher o conhecimento no lugar da idiotização. Precisaremos continuar aprendendo e ensinando às novas gerações como aprender a aprender, como pensar criticamente e como solidificar conhecimento.
E que entusiasmantes ambientes de aprendizado e troca de conhecimento as redes sociais podem se tornar! É nessa direção que precisamos ir.
As redes sociais não nos moldam. Elas apenas refletem o que somos. O que as redes sociais são e se tornam é apenas reflexo da direção que tomamos.
Meu objetivo é escrever 30 textos em 30 dias. Este é o 16/30. Os textos anteriores podem ser encontrados em https://medium.com/(ricsodre?)